Lau Siqueira
A
boemia pessoense ainda preserva seus mais alinhados personagens.
Principalmente no anonimato turbulento das ruas da Cidade Antiga. Na
Ladeira da Borborema guardamos boas memórias do poeta Manuel Caixa
D’água. Nos escambos temporais deste início de século, ainda há quem
nos faça sonhar com a velha Parahyba do Norte - “morena brasileira”. A
eterna Cidade das Acácias. Um lugar onde os sagüis pululam pelos
resquícios da Mata Atlântica e onde as prostitutas retomam o simbolismo
histórico da luta pelo reconhecimento da profissão. Assim a cidade vai
se organizando politicamente no movimento das águas e dos tempos.
Convulsionando uma urbanidade que nasceu nas margens de um rio para
desaguar nas memórias do futuro.
Foi numa cidade assim, ali no Roger
- mais exatamente na Rua Anísio Salatiel número 60 - que nasceu
Severino Ramos de Oliveira. Isso foi no ano de 1938. Ainda na primeira
infância o irmão lhe conferiu o apelido de Parrá, sem saber que estava
realizando um batizado artístico. Nascia um personagem da cultura de
uma cidade absorvida, naquele momento, pela era do rádio. Um tempo em
que as ondas médias e as ondas curtas determinavam o todo poderoso
veículo da comunicação popular. Um talho de modernidade no
provincianismo de uma cidade que presenteou o Brasil e o mundo com
personalidades importantes da cultura brasileira. Como o cidadão do
mundo, Ariano Suassuna. Um litorâneo de alma sertaneja. Um homem que
trafega sua existência nas raízes da expressividade cultural do povo
nordestino. Tudo dentro de uma rotina de invenções. Numa plasticidade
de cores e ritmos. Elementos para o cenário de uma vida dura que gerou
a alma delicada dos seus artistas.
Parrá representa o glamour e o
estigma de uma geração que construiu os maiores referenciais da chamada
Música Popular Brasileira. Na verdade, uma geração que abriu as
comportas para o nascedouro da MPB enquanto conceito, dentro da
universalidade natural da música de qualquer região do planeta. Um
tempo de grandes ritmistas como Jackson do Pandeiro que esteve para a
Rádio Nacional do Rio de Janeiro, na mesma proporção que Parrá esteve
para a época de ouro da Rádio Tabajara, aqui na Paraíba. Com absoluta
convicção do seu destino, Parrá soube traçar (na base da “marmota”,
tantas vezes) os seus próprios caminhos. Sempre com a simplicidade de
um homem que fez da música a sua forma de transcendência no tempo.
Preservando-se enquanto menino, em cada leitura do mundo que o cerca.
Tudo isso compõe o inventário de uma vida que não guardou espaços para
a tristeza, mesmo que estas tenham sido tantas e muitas vezes, tão
profundas.
Parrá está situado na história da música nordestina,
entre os grandes nomes do seu tempo. É certo que não teve o seu
trabalho reconhecido lá fora, principalmente no vigor da juventude. Até
porque muito pouco saiu da Paraíba. Principalmente porque nunca saiu do
Nordeste. Somente este detalhe apartou o cantor de um reconhecimento
público muito semelhante aos artistas que foram consagrados
nacionalmente pela mídia, abrindo os olhos do país para a efervescência
cultural da Paraíba. Mesmo assim, Parrá influenciou e influencia as
novas gerações de músicos paraibanos. Com sua elegância, com suas
convicções estéticas, com suas marmotas, com sua alegria perene e sua
dignidade. Ele faz parte de um grupo seleto que reúne nomes como
Livardo Alves e outros que, mesmo sem sair da cidade, conseguiram uma
consagração e um reconhecimento raro para os chamados “santos de casa”.
Parrá não é e nunca foi santo. Todavia, está na área e “obra milagres”
- como se costuma dizer por aqui - com a inventividade da sua arte. Sua
natureza é criativa e musical. Um artista que soube eternizar-se na
memória da cidade. Seja pela sua simplicidade conjugada com sua
irreverência, mas principalmente pelo seu inquestionável talento e pela
organicidade da sua atividade intelectual.
Logicamente que se torna
um tanto quanto redundante ressaltar as influências jacksonianas.
Aliás, essas influências do grande mestre de Alagoa Grande chegaram
também para Alceu Valença, Zé Ramalho, Lenine, Zeca Baleiro, Chico
Cesar e até mesmo aos roqueiros conterrâneos do Rei do Ritmo da banda
Jackson Envenenado, de Alagoa Grande. Mas, com Parrá, foi diferente.
Não se trata apenas de uma influência. Trata-se da absorção geral de
todos os mimos, trejeitos, manejos e traquejos de uma tradição rítmica
bem nordestina e, sobretudo, genuinamente paraibana. Algo que esteve
representado na existência artística de Jackson, mas que também está em
Parrá, Biliu de Campina e outros artistas importantes desta terra de
grandes artistas. Este é o diferencial que coloca o nome de Parrá
sempre na vanguarda quando o assunto é Jackson do Pandeiro. E é
exatamente isso que diferencia o nosso Severino Ramos de Oliveira. Não
seria ele um cover do mestre. Falando assim, num tom bem nordestino, o
morador da Rua Anísio Salatiel número 60, no Roger, seria a mais
perfeita “parêa” musical e existencial do velho Jackson do Pandeiro.
Na
cena musical contemporânea do Estado, o cantor e compositor ainda
resiste ao lado de grupos como Burro Morto, Chico Correa, Cabruêra,
cantores como Escurinho, Erivan Araújo e Gláucia Lima que, com certeza,
souberam e sabem beber na fonte inesgotável que é a musicalidade deste
artista cujas levadas e cujo suingue transpiram no cotidiano da cidade,
de onde ele sempre arrancou o barro, o fogo e a água, para esculpir
canções que marcaram a história musical do Nordeste. A musicalidade de
Parrá está muito mais viva que nunca!
Em 2006, na festa de
aniversário da cidade, a homenagem foi para Jackson do Pandeiro. As
escolhas da Fundação Cultural de João Pessoa não poderiam ser mais
exatas. A Orquestra de Câmara Cidade de João Pessoa, criada e regida
pelo maestro argentino radicado na cidade, Gustavo de Paco, tocou 11
músicas de Jackson. Todas interpretadas de forma impecável pelo
irreverente Parrá. Um show de competência e identidade cultural. Na
verdade aquele show representou certo redimensionamento da relação
entre a música erudita e a música popular. Naquele momento, Parrá se
mostrava digno da consagração na memória do seu povo. O público cantava
entusiasmado os sucessos de Jackson, como se o show fosse com o
próprio. O Canto da Ema, Sebastiana, Um a Um, Forró em Limoeiro e
outras. Naquele momento Parrá selava em sua carreira um reconhecimento
que vinha sendo, injustificadamente, sonegado. Em um show realizado
anteriormente, no São João, ele fez uma declaração pública que vale
como alerta para os gestores de cultura que não se preocupam com a
preservação da memória dos seus artistas: “eu estava morto e vocês me
ressuscitaram”, disse Parrá. Na verdade, Parrá, a cidade é que andou
entorpecida, desmemoriada, fora do eixo... Você representa o espírito e
o corpo de uma cultura que não se rende, independentemente da
sensibilidade de quem a governa. Uma cultura de resistência que
transita soberanamente entre a tradição e a modernidade.